Procrastinação pode ter origem no cérebro, aponta estudo científico

- 16 janeiro





Adiar tarefas do dia a dia, mesmo aquelas associadas a recompensas, pode ter uma explicação biológica mais profunda do que se imaginava. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Kyoto, no Japão, indica que a procrastinação está ligada a um mecanismo específico do cérebro responsável por frear ações percebidas como desconfortáveis, estressantes ou punitivas.

A pesquisa, liderada pelo neurocientista Ken-ichi Amemori e publicada na revista Current Biology, foi realizada a partir de experimentos com primatas. Os cientistas observaram que, diante da expectativa de uma experiência negativa, o cérebro ativa um circuito neural que reduz a motivação para iniciar a tarefa, mesmo quando há uma recompensa envolvida.

O mecanismo identificado envolve a comunicação entre duas estruturas dos gânglios da base: o estriado ventral e o pálido ventral, áreas associadas à motivação e ao sistema de recompensas. Quando o estriado ventral detecta um possível desconforto, ele envia sinais inibitórios ao pálido ventral, diminuindo o impulso para agir — um verdadeiro “freio” antes mesmo do início da ação.

Para confirmar essa função, os pesquisadores interromperam temporariamente essa comunicação por meio de uma técnica quimiogenética. Com isso, os animais retomaram a disposição para realizar tarefas consideradas aversivas, sem alterações no comportamento motivado apenas por recompensa. O resultado indica que o circuito atua de forma seletiva, especialmente em situações associadas ao desconforto.

Além de ajudar a compreender a procrastinação cotidiana, os achados têm implicações para a saúde mental. Déficits de motivação são comuns em transtornos como depressão e esquizofrenia, e o circuito identificado pode se tornar alvo de estudos terapêuticos. Ainda assim, os cientistas alertam que esse mecanismo também tem papel protetor, ajudando o cérebro a evitar a exaustão física e emocional, o que exige cautela em futuras intervenções.

Gustavo Monge