Análise de dentes revela dieta simples e baseada em grãos na antiga Mesopotâmia
- 26 março
Uma nova pesquisa científica está mudando o entendimento sobre a alimentação das primeiras civilizações urbanas da história. Ao contrário do que indicavam registros escritos produzidos por elites, um estudo recente revelou que a dieta da população comum na antiga Mesopotâmia era mais simples e baseada principalmente em grãos. A descoberta foi possível por meio da análise do esmalte dentário de habitantes da cidade suméria de Abu Tbeirah, no atual Iraque, há cerca de 4,5 mil anos.
O trabalho foi conduzido por uma equipe liderada pelo pesquisador Matteo Giaccari, da Universidade Sapienza de Roma, e publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Os cientistas utilizaram isótopos de zinco presentes no esmalte dos dentes para reconstruir a alimentação, já que o colágeno ósseo, tradicionalmente analisado, não se preserva bem em regiões áridas e salinas como o sul da Mesopotâmia.
Os resultados apontam que a base da alimentação era composta por cereais do tipo C3, como cevada e trigo. O consumo de proteína animal existia, mas era limitado, com destaque para a carne de porco. A análise indica uma dieta onívora, porém com predominância de vegetais e acesso restrito a alimentos mais valorizados, como grandes quantidades de carne ou derivados animais.
Um dos achados mais surpreendentes foi a ausência quase total de consumo de peixe marinho, apesar da proximidade da cidade com o Golfo Pérsico. Esse dado contrasta com registros históricos da época, como tabletes de argila, que frequentemente mencionam peixe e cerveja como itens comuns. Segundo os pesquisadores, esses documentos podem refletir hábitos de elites ou contextos rituais, e não o cotidiano da população em geral.
O estudo também trouxe informações sobre práticas familiares, como a alimentação infantil. Os dados indicam que o aleitamento materno exclusivo durava cerca de seis meses, seguido por um desmame gradual com introdução de leite animal e cereais. Além disso, não foram identificadas diferenças significativas entre a dieta de homens e mulheres, sugerindo acesso relativamente uniforme aos alimentos. A nova abordagem abre caminho para compreender melhor os hábitos e desigualdades das sociedades antigas.
Gustavo Monge