Arqueologia revela cemitério de 2 mil anos no Vietnã com dentes escuros como tradição cultural

- 24 fevereiro





Pesquisadores identificaram um cemitério de cerca de 2 mil anos no sítio arqueológico de Dong Xa, no norte do Vietnã, onde esqueletos apresentavam dentes permanentemente escurecidos. O estudo, publicado na revista Archaeological and Anthropological Sciences, indica que o hábito de escurecer os dentes, associado à beleza e à identidade cultural, já era praticado na Idade do Ferro.

A análise do esmalte dentário foi feita com técnicas avançadas, como fluorescência de raios X, microscopia eletrônica de varredura e espectrometria de dispersão de energia. Os resultados mostraram altas concentrações de ferro e enxofre nas áreas pretas, sugerindo que sais de ferro eram aplicados intencionalmente, frequentemente misturados a substâncias vegetais como a noz de betel, para obter a coloração duradoura.

O processo, que podia levar dias ou semanas, mantinha os dentes escuros por toda a vida, com retoques ocasionais. Entre os antigos habitantes do Vietnã, dentes pretos eram valorizados por seu contraste com a pele clara e vistos como símbolos de elegância, maturidade e pertencimento a grupos sociais específicos.

Além do aspecto estético, especialistas sugerem que o escurecimento poderia ter oferecido proteção contra cáries, já que a reação química entre ferro e taninos formava uma camada resistente no esmalte. O hábito, embora reduzido nas áreas urbanas modernas, ainda é observado em comunidades rurais do sudeste asiático como afirmação de herança cultural.

Segundo a arqueóloga Yue Zhang, da Universidade Nacional da Austrália, o estudo de Dong Xa é o primeiro a relacionar dentes enegrecidos arqueologicamente com práticas modernas de escurecimento intencional. A presença de ferro e enxofre no esmalte oferece um marcador confiável para identificar hábitos culturais antigos, mesmo quando registros históricos não estão disponíveis.

Gustavo Monge