“As fronteiras de Oline” transforma fantasia em reflexão sobre identidade e paternidade

- 26 fevereiro





Definir os rumos da literatura contemporânea brasileira é um desafio constante. Em meio à pluralidade cultural do país, críticos e pesquisadores têm revisto conceitos tradicionais, como o de cânone literário, ampliando o olhar para obras que promovem reflexão, empatia e compreensão de diferentes realidades. Nesse cenário, gêneros antes marginalizados, como fantasia, ficção científica e horror, passaram a ocupar espaço relevante no debate estético e acadêmico.

É nesse movimento que se destaca o romance As fronteiras de Oline, estreia do escritor gaúcho Rafael Zoehler. Publicado em 2024, o livro foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e venceu o Prêmio Jabuti na categoria Romance de Entretenimento. A obra chamou atenção ao superar autores já consolidados e consolidou Zoehler como um dos nomes promissores da ficção nacional.

A narrativa parte de uma premissa inusitada: um guarda de fronteira entre Sérvia e Cazaquistão — países que, na realidade, não fazem divisa — lança uma pedra de um território a outro e decide atravessar o mundo para devolvê-la ao lugar de origem. A partir desse gesto aparentemente banal, tem início uma jornada marcada por elementos fantásticos, em um mundo que se assemelha ao nosso, mas é atravessado por deslocamentos geográficos improváveis e acontecimentos extraordinários.

Mais do que uma fábula imaginativa, o romance constrói uma delicada alegoria sobre paternidade, identidade e amadurecimento. O protagonista, Senhor Oline, moldado pela rigidez e pelo medo herdados do pai, descobre ao longo da busca pela pedra a capacidade de imaginar e de questionar o próprio destino. Entre países que mudam de lugar e personagens que atravessam continentes a nado, a obra reafirma a potência da fantasia como instrumento de humanização e consolida-se como uma das contribuições mais singulares da literatura brasileira recente.

Gustavo Monge